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Vontade poderosa
Ramakrishna
Contemplar - Jean-Yves Leloup

Vontade poderosa

Lindananda


Artigo escrito em 20.5.72

Por que tanta gente procura caminho novo, quando a ciência oferece um mundo sofisticado para nosso deleite?

Vivemos no labirinto das contradições, inseguros, e ao mesmo tempo desejamos algo que atenda nossas aspirações mais íntimas. O difícil é saber como começar a trilhar a nova estrada.

Hoje, quase todos comungam da convicção de que além do frágil véu da falsa realidade existe uma realidade maior do qual alguma coisa nos separa por algum motivo. Qual será?

Para penetrar nestas fronteiras é indispensável que nossa consciência se transforme e, sobretudo façamos a entrega de nós mesmos, sem condições, à Mãe Universal, para atravessarmos nossas velhas fronteiras na busca do novo mundo.

Os psicotrópicos que são usados, atualmente, por grande número de jovens, indicam a ânsia do ser humano na busca de penetrar no desconhecido, de revelar a si mesmo, de interpretar com segurança o que existir em seu “eu” interior. Estes processos, todavia, levam à loucura, sem que o experimentador alcance seu objetivo. O emprego destas substâncias, para obter resultados “psíquicos”, é desastroso. Tudo nos leva à estaca zero, pois, continuam as desarmonizações anteriormente sentidas, sem resposta.

Já nos acostumamos a receber visitas de pessoas interessadas nos estudos da ioga. O entusiasmo que se apossa do iniciante na obra maravilhosa do descobrir a si mesmo, logo se esboroa pela carência de perseverança, sobretudo pela causa essencial do seu fracasso: as ondas de ignorância que o dominam e que não consentem, facilmente, em sua retirada do terreno onde ele é escravo. Isto quer dizer, que se não houver uma poderosa vontade, nascida mesmo do subconsciente, manifestando-se no indivíduo, hoje, ele é uma pessoa, amanhã, é uma outra muito diferente. Quando a pessoa não conhece a si mesmo, no campo espiritual, não podemos aceitar seu compromisso, porque está sujeito a trocas, é algo instável. Quantas vezes, por experiência, temos entregado certos segredos de práticas ióguicas, demandando a pessoa para não transmitir aquelas imagens para nenhuma outra, senão dali a seis meses. Resultado: dali alguns dias, sua esposa está sabendo do que se passou; mais um pouco de dias, amigos reunidos em torno de uma mesa, bebendo qualquer coisa, também, ficam cientes do fato; hipnotizado, revela o que se passou; outra companheira de estudos, propositadamente, surpreende-o, faz a indagação e a história está na rua. É que esta criatura tem várias facetas, ainda não acordou, não é um homem que conhece a si mesmo. Fez a promessa, faria muitas outras, com boa intenção, mas não tem a condição essencial para manter o compromisso: não conhece a si mesmo.

Existem centenas de livros apontando os meios para o ser humano encontrar a sua vocação. Há, sem dúvida, muitos ensinamentos úteis nessas obras, mas elas estão longe de resolver o problema vocacional. Por isso, verificamos tantos fracassos pelo mundo a fora porque as mentes são utilizadas no trabalho que não lhe são próprias, passando a agirem mecanizadas. Verifica-se, então, que o homem trabalha dirigindo a mecanização e, ao mesmo tempo, não passa de uma máquina governada por influências externas. O assunto é tão atraente que podemos afirmar que a arte, a poesia, o pensamento escrito, todos são fenômenos mecanizados. Filho de gato, gatinho é...

Há pessoas que não são máquinas, mas elas são antes de qualquer coisa, conhecedoras de si mesmas. E para uma pessoa saber se é ou não uma máquina, é preciso ter alcançado as qualidades de penetrar dentro do “Eu” interior. No mundo há gente selvagem, mecanizada, intelectual, gênios. Elas, aparentemente, são diferentes. Mas, a verdade é que são máquinas, movidas por influências externas. Máquinas nascem. Máquinas morrem. Estamos, pois, no reinado da mecanização. Parece um disparate incluir no mesmo quadro, selvagens e intelectuais, não é assim? Agora, mesmo, quando estou escrevendo este artigo, milhares de máquinas tratam de matar uns aos outros. Que diferença há entre elas? Onde estão os selvagens e os intelectuais? Além do front vietnamita, dos terrenos asiáticos, estão os que aceitam e os que não aceitam a guerra, também, depredando, aniquilando, incendiando, como formas de protesto. Todos são os mesmos... senão agiriam de outra maneira.

Há várias espécies de máquinas: o automóvel; o canhão, é máquina; a metralhadora, é máquina, o avião, ultra-matador, espalhando milhares de bombas por dia, é máquina. Embora diferentes em seus místeres, tudo é a mesma coisa: máquina.